sexta-feira, 8 de maio de 2015

1 Barra

Esse post não é "zueira". Mas é sobre a barra que é gostar de você.

Eu queria ser daquele tipo de pessoa que se apaixona fácil. Mas quando eu penso na minha vida e nas pessoas por quem eu me apaixonei, a lista é pequena. Claro que eu sempre fui volátil. Minhas vontades passageiras mudam a cada segundo e é meio que uma loucura tentar acompanhar meu pensamento. Segunda-feira, eu vou acordar pensando que o Fabrício* é um excelente ser humano e que não seria nada mal se eu investisse nele. Terça-feira, eu já me esqueci completamente do Fabrício e tô pensando que, na verdade, o Hugo* é bem mais decente e com certeza é diferente. Só que a questão é: eu não chego a me apaixonar por nenhum desses. Eles só fazem parte da lista de pessoas que eu conheço e a quem eu recorro quando sei que gosto de alguém, mas esse alguém está, pra variar, fora do meu alcance.

*Todos os nomes são fictícios. 

Isso não é um daqueles discursos de "ai, eu não sou boa o suficiente", até porque, pra ser sincera, todos os caras por quem eu me apaixonei até hoje que não eram bons o suficiente (pra quase ninguém). Tá aí um outro defeito meu: eu tenho um dedo podre. A história se repete: visualizo alguém, um momento Blank Space acontece (referência à Taylor Swift, se alguém ficou em dúvida) e eu obviamente me preparo pra alcançar meus objetivos. Meu objetivo final é o mesmo todas as vezes: em algum lugar da minha cabeça, eu consigo me ver tendo um relacionamento normal com essa pessoa, que vai durar mais do que duas semanas (eu nunca penso em namoro inicialmente, porque quem me conhece sabe que tenho traumas mal resolvidos nessa área, mas sempre imagino que vai ser um companheiro). Mas meu objetivo inicial é bem esse: iniciar alguma coisa. Se rolou um momento Blank Space, eu nunca, jamais, em hipótese alguma, vou conseguir olhar pro ser humano fatídico da mesma forma. E eu estarei fadada a me apaixonar.




Aí o que acontece é: o jogo começa, eu passo o level 1, e GAME OVER. Aham. Não é exagero. Eu posso até passar pro level 2, mas ficarei presa ali pra sempre, repetindo e repetindo a mesma partida, sem nunca avançar. Só que eles sempre avançam, mais cedo ou mais tarde, com outra pessoa. O discurso que eu escuto (e isso acontece desde a minha primeira paixão, aos 15 anos) é que eles, na verdade, não estão preparados pra ter nada sério. E seria mentira dizer que eu não quero nada sério, porque eu quero. Quero uma pessoa pra ir no cinema comigo numa quinta-feira, sair pra jantar na segunda, que eu possa convidar pra sair com os meus amigos na sexta. Não é um namoro, mas é sério. E eles não querem. Comigo. Porque a minha sina é ver todos os caras de quem eu já gostei começarem a gostar de alguém, aquela pessoa que mudou todo o jeito deles de ver o mundo, com quem eles topam ter alguma coisa séria. E duas vezes essa pessoa era de outro estado.

Claro que não dá pra falar "poxa, nem o fato de economizar com a ponte aérea me faz ir pra frente da fila", porque eu sei muito bem que não é uma competição (apesar de a gente sempre acabar se comparando - o que nunca é legal). E sei que todas as sortudas (ou não) que conseguiram o que eu queria não fizeram nada contra a minha pessoa. Nem eles, na verdade. Eles podiam ter dado uma chance ao acaso, mas sei lá quantas vezes eu deixei de dar uma chance ao acaso de alguém?

Então por que o dedo é podre? Porque eles sempre são babacas. Ninguém é obrigado a dar uma chance pra ninguém. Se você não gostou de ficar com uma pessoa, não consigo pensar em nenhuma razão plausível pra você ficar com essa pessoa de novo. Seria estupidez, porque é repetir uma experiência ruim. Mas nenhuma das minhas três paixões sofreu desse mal. Se sofreram, eram mentirosos e estúpidos (o que não ajuda no caso deles também). O problema é que todos eles acabam fazendo ou deixando de fazer as coisas pelos motivos errados. Ou do jeito errado. A situação nunca foi a mesma, mas o resultado é.




Aí você, que leu até aqui, se pergunta: qual que é o propósito dessa postagem? Você tem no mínimo uma dica de como fugir desse tipo de situação? E não, ainda não. Eu aceito dicas, se vocês tiverem. Aceito mesmo. Podem me mandar por telegrama, inbox, mensagem, carta, até sinal de fumaça. A única função desse texto que você acabou de ler é ser um desabafo. E claro, um agradecimento às cantoras e compositoras que fazem um trabalho magnífico em me fornecer uma música específica pra cada tipo de situação dessas. Valeu Taylor Swift, por I Knew You Were Trouble. Valeu P!NK, por Try. Valeu Pitty, por Naquela Estante.

Um pedido de desculpas oficial a todas as minhas vontades passageiras também é válido. Alguns de vocês provavelmente acabaram criando um momento Blank Space não correspondido, e se eu tivesse sofrido a minha fossa sem querer resolver ela com outras pessoas, isso (provavelmente) não teria acontecido. Até os que não tiveram esse momento, vocês merecem uma desculpa porque foram teoricamente usados. Mais um pedido de desculpas a todas as que chegaram ao último level e ganharam (ou não) o jogo: acreditem, eu me envergonho por todas as vezes que pensei, em voz alta ou não, que vocês eram feias, e apontei defeitos visuais pra tentar massagear o meu ego ferido. Isso nunca teve nada a ver com vocês.

Por fim, a todas as pessoas que sofrem desse mesmo mal, que estão sofrendo assim como eu: estamos juntos nessa. E eu ainda acredito que existe uma recompensa por todos esses dramas no fim do túnel.

Ps.: vida, se você estiver lendo, aceito um novo momento Blank Space, pois o atual complica mais que só a minha vida pessoal. Grata.

domingo, 8 de março de 2015

Colete à prova de balas

FEMINISMO SALVA.

Eu sei, tá parecendo anúncio de igreja, mas eu vou explicar.

Um dia desses, ouvi de um homem cis (claro) que eu não podia usar o feminismo pra me proteger das coisas, porque não era essa a função do movimento (até porque, lógico, homens sabem muito mais sobre o feminismo do que as mulheres, né?). Mas gente: se o feminismo não serve pra me proteger, qual o propósito dele?

Então: FEMINISMO SALVA SIM.

Salva aquela mulher que o namorado objetifica e faz parecer que ela só serve pra transar.
Salva aquela mulher que gravou um vídeo num momento de intimidade e depois foi obrigada a ver o mundo assistindo.
Salva aquela mulher que foi estuprada e se sentiu a pior pessoa da história e ainda acreditou que a culpa era dela.
Salva aquela mulher que engravidou e não tem condições de ter o filho e quer abortar.
Salva aquela que quer se guardar pro casamento e é desrespeitada por essa decisão.
Também salva a que quer dar pra todo mundo (mas não pra qualquer um) e é desrespeitada do mesmo jeito.
Salva aquela mulher gorda que é obrigada a ouvir todos os dias sobre aquela dieta da vez que vai fazer ela chegar no "peso ideal".
Salva aquela mulher que é anoréxica porque a sociedade fez com que ela fosse infeliz com o próprio corpo.
Salva a negra que é objetificada na Globo no carnaval. E em todos os outros dias do ano.
Salva a moça da periferia que muitas vezes não tem acesso à informação.
Salva aquela mulher que passou anos num relacionamento abusivo.
Salva aquela mulher que apanhou do companheiro.
Salva aquela que foi chamada de fácil porque deu pra um cara na primeira noite.
Salva aquela que foi chamada de puta só porque deu.
Salva aquela que alisava o cabelo porque cresceu ouvindo que cabelo liso era "cabelo bom" e hoje deixa os cachos à solta.

O feminismo me salvou e salva diversas vezes. Todos os dias. Ele salva a negra, a branca, a gorda, a magra, a cis, a trans, a que pega homens, a que pega mulheres e a que pega os dois. Eu uso sim o feminismo como um colete pra todo esse machismo escroto que é jogado na minha cara diariamente. E vou continuar usando. Vou continuar na luta pra que cada vez mais mulheres usem dessa mesma proteção: que elas saibam seus direitos, gritem por eles, briguem por eles, lutem por eles.

E pra todo homem cis que diz que feminismo é exagero, que não pode servir como apoio, como defesa, eu digo: TÁ TENDO MULHER EMPODERADA E QUE NÃO PRECISA DE HOMEM SIM. SE RECLAMAR, VAI TER MAIS. SE NÃO RECLAMAR, VAI TER MAIS DO MESMO JEITO.

Por fim: desejo sim feliz dia às mulheres guerreiras que eu conheço. Mas mais do que isso: desejo força, muita força pra continuar essa luta. E desejo que muitas outras ganhem um colete à prova de balas igual o meu ao invés de rosas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

5 razões para amar country music

Nem toda música que faz sucesso lá fora (principalmente Estados Unidos) vem pra cá com a mesma força. Um estilo que raramente ultrapassa a barreira, por exemplo, é o country. Mas eu separei cinco razões de por que dar uma chance a algumas cantoras desse estilo. Apesar de ainda ser uma das "áreas da música" com maior quantidade de músicas machistas por metro quadrado, existem mulheres que impõe um puta respeito.

A seguir a minha lista das cinco músicas de artistas country que toda feminista/mulher devia conhecer:


1. Follow Your Arrow - Kacey Musgraves


Letra e tradução feitas pelo Letras Terra aqui.

Desde o primeiro momento que eu ouvi essa música eu apaixonei. A letra é tão linda que já começa assim: "If you save yourself for marriage you're a bore. If you don't save yourself for marriage you're a whore-able person. If you don't have a drink then you're a prude, but they'll call you a drunk as soon as you down the first one" que é basicamente aquele problema que toda mulher vive onde é impossível agradar: se você escolheu esperar, você é uma chata; se você escolheu esperar o próximo, você é basicamente uma puta (aí ela faz um trocadilho super legal com "whore" e "horrible", que seria vadia x horrível). Se você não bebe, é puritana. Mas vão te chamar de bêbada no minuto que você virar o primeiro copo.

Tem mais razão pra amar a música: "make lots of noise and kiss lots of boys, or kiss lots of girls if that's something you're into". Eu sei, parece normal alguém falar "pega um monte de homem ou pega um monte de mulher, se for isso que você gosta", mas no universo da música country é meio que um super bafom alguém falar um negócio desses. E mais: ela ainda fala "when the straight and narrow gets a little too straight, roll up a joint" que é um conselho dizendo "se a galera tiver enchendo o saco demais, enrola um baseado". O que, óbvio, não costuma entrar muito nas letras de música country. O mais surpreendente é que a Kacey ganhou um prêmio pela música! Sim! Uma música que fala sobre não ceder à pressão da sociedade, mulheres beijando outras mulheres e erva: essa música ganhou um prêmio.

Fora a letra magnífica e super empoderadora, o ritmo da música é bem gostosinho. E a melhor lição que a música me deu:

"Just cause you can't beat them, don't mean you should join them" // "Só porque você não consegue vencê-los, não significa que você deve se juntar a eles".

2. Gunpowder & Lead - Miranda Lambert



Letra e tradução pelo Letras Terra aqui.

Antes de mais nada: a Miranda é a rainha do country pra mim. Não existe artista country que eu goste mais que ela, rs. Então sou bem suspeita, mas: ela tem um álbum que chama "crazy ex-girlfriend" ("ex-namorada louca"; aliás, o álbum dessa música), em que, na minha opinião, ela passa uma posição de "pode chamar de louca, mas não pisa no meu calo" (não da forma correta em todas as músicas; mas é válido entender o meio que ela cresceu e vive). E essa é uma das minhas músicas preferidas, e eu escuto TODA VEZ que um cara é babaca comigo e eu tô puta da vida, querendo exterminar essa raça ruim chamada homem (cis hetero).

A história da música é: o cara violentou ela fisicamente, aí ela resolve acender um cigarro, carregar a arma e esperar na porta pelo vigarista. Aí ela diz "I'm gonna show him what little girls are made of: gunpowder and lead", que é um recado "vou mostrar pra ele do que garotinhas são feitas: pólvora e chumbo". E eu sei que muita mulher (viva a misandria!) por aí vai acabar igual eu: ouvindo a música e gritando a letra visualizando o ódio que tá sentindo, rs.

"His fist is big, but my gun's bigger. He'll find out when I pull the trigger" // "O punho dele é grande, mas minha arma é maior. Ele vai descobrir quando eu puxar o gatilho"

3. Hell on Heels - Pistol Annies


Letra e tradução pelo Letras Terra aqui.

Pistol Annies é um grupo composto pela Miranda Lambert (rs), Ashley Monroe e Angaleena Presley, fantástico por sinal, mas que não durou muito (pra minha infelicidade). Mas dentre os dois álbuns que elas fizeram, tem várias músicas sensacionais. A minha preferida (e a primeira que eu ouvi): Hell on heels, ou "inferno de salto alto".

Na música elas vão atrás de vários homens diferentes e elas meio que extorquem cada um deles, deixando nada pra trás. Tipo quando a Ashley diz "Then there's Jim, I almost forgot, I ran him off, but I took the yatch. Poor old Billy, bless his heart, I'm still using his credit card", contando do Jim, que ela expulsou, mas manteve o iate, e do pobre e velho Billy, de quem ela continua usando o cartão de crédito.

"I'm hell on heels, baby I'm coming for you" // "Sou o inferno de salto alto, baby, estou indo buscá-lo".

4. Man! I Feel Like a Woman - Shania Twain


Letra e tradução pelo Letras Terra aqui.

Primeiro de tudo: esse álbum é de 1997. E segundo: essa é uma das minhas músicas preferidas da vida, eu sempre escuto quando tô animada. A música fala, basicamente, sobre não se importar, enlouquecer, esquecer que é "lady", fazer o que quiser, ser livre pra se sentir exatamente isso: uma mulher.

Shania fala "no inhibitions, make no conditions, get a little out of line" & "we don't need romance, we only wanna dance": nenhuma inibição, sem fazer condições, sair um pouco da linha; e nem precisa de romance, o importante mesmo é dançar!

"I ain't gonna act politically correct, I only wanna have a good time" // "Não vou agir de forma politicamente correta, eu só quero me divertir".

5. Goodbye Earl - Dixie Chicks



Letra e tradução pelo Letras Terra aqui.

Antes de tudo, Dixie Chicks é outro trio fantástico, composto pelas irmãs Martie, Emily e Natalie. Acho que elas entram como princesas do country pra mim, rs. E essa música é de chorar de emoção: começa contando que Mary Anne e Wanda são bffs, basicamente (melhores miguxas), aí depois da graduação, Mary Anne entrou num ônibus e partiu pra buscar alguma coisa, enquanto Wanda ficou na cidade e acabou encontrando o Earl, O Babaca.

Assim que eles se casam, nem duas semanas depois, ela começa a ser obrigada a usar óculos escuros, blusa de manga comprida e maquiagem pra cobrir as marcas dos machucados que o Earl fazia nela. Ela pede o divórcio e confia que a lei que vai protegê-la, mas tadã: Earl ainda vai atrás, fazendo com que ela acabe na UTI.

Agora a coisa fica legal: Mary Anne vem desesperada voando, segura na mão da Wanda enquanto elas decidem um plano e chegam à uma conclusão: Earl tem que morrer. No final, elas compram uma terrinha no Tennessee e ainda não perdem sono à noite. Sororidade + misandria + homem (cis hétero) babaca se ferrando. Dá pra ficar melhor?

Eu sei, já foram cinco. Essa é extra: Just Because I'm Woman - Dolly Parton


Essa não tem tradução no Letras Terra, mas peguei a letra no AZLyrics, aqui. Se alguém quiser a tradução, pode me pedir ou usar o Google tradutor (aliás, muitas das traduções do Letras Terra são feitas pelo Google automaticamente, principalmente de músicas menos conhecidas no Brasil).

Eu tive que colocar essa, porque gente, essa música é de 1968! Isso faz dela quase (não tão quase assim, mas) um hino feminista! Dolly é fantástica, todos sabemos. Ela deve ser mesmo uma das rainhas do country (levando em conta a opinião geral, porque ninguém substitui Miranda no meu coração), aliás, ela é.

A música é a Dolly batendo um papo com mais um homem (cis hétero) babaca por aí, rs. Ela sabe que ele tá decepcionado, foi mal aí que ela não era a mulher que ele pensava, mas os erros dela não são piores só porque ela é mulher. Depois, ela ainda crítica o costume (péssimo) que os homens tinham de ir lá, pegar a garota, destruir a reputação dela e tudo, mas quando queriam casar, a história era outra e eles procuram um anjinho imaculado pra usar o vestido.

Só queria compartilhar que, pra época, essa música é fantástica. Obrigada, de nada.

"Yes, I've made mistakes, but listen and understand: my mistakes are no worse than yours just because I'm a woman" // "Sim, eu cometi erros, mas escute e entenda: meus erros não são piores que os seus só porque eu sou mulher".



Gente, podia passar um dia pensando em músicas do meio country que já fizeram eu me sentir mais empoderada, tanto quanto a Beyoncé (<3), mas vou deixar só essas seis por hoje. Eu volto, com certeza. E pra quem ainda não foi conquistado pelo universo country, eu digo: dá pra se apaixonar fácil, fácil.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Âncoras

Todo mundo já fez alguma coisa que se arrependeu depois. Se não fez ainda, um dia vai fazer. É a lei da vida: nem sempre a gente acerta. Às vezes o que a gente acha que é melhor naquele segundo, acaba não sendo o melhor pros 10.000 segundos seguintes. Que se arrepender faz parte dessa experiência maravilhosa que é viver, todos sabemos. O que me preocupa, é a forma como encaramos essas péssimas decisões momentâneas.

Já me arrependi de várias coisas, quis voltar atrás em várias outras. Já me arrependi de ter magoado alguém, de ter mentido, de brigar com uma pessoa sem necessidade, de não conseguir controlar o que eu sentia, de me abrir demais pra quem não merecia... Minha lista de arrependimentos é grande, e a cada momento que eu vou vivendo, ela aumenta. Mas de forma alguma eu fico triste pelas coisas que eu me arrependo de ter feito. Não mais.

O que mudou pra mim, foi a forma de ver essa fatalidade impossível de se evitar: meus arrependimentos simbolizam tudo aquilo que eu espero não fazer de novo. A função deles não é de ser uma âncora amarrada nos meus pés, me fazendo relembrar de cada segundo do que já passou e não volta. Eles servem como post-its que ficam num mural mental que eu guardo, da onde eu tiro referência pras decisões que realmente importam: aquelas que eu vou fazer no presente ou no futuro.

Todo mundo erra. Nem todo dia a gente acorda orgulhoso da gente mesmo. Mas isso não faz de ninguém uma pessoa ruim. Aliás, se você me perguntar, eu te digo: nunca confie em quem nunca se arrependeu de nada. Uma pessoa que não se arrepende, é uma pessoa incapaz de compreender e admitir os próprios erros. Porque nem tudo que a gente faz é exemplar. Nem sempre você vai tomar a decisão que é melhor pro seu eu do dia seguinte. Às vezes o seu eu das 23h só quer ser egoísta por dois minutinhos e fazer o que ele tá afim de fazer.

E nem sempre aquilo que a gente se arrepende de ter feito, é ruim. A situação sempre traz alguma coisa de bom. Dizem por aí "nunca se arrependa, porque em algum momento aquilo era exatamente o que você queria fazer", mas eu digo: se arrependa sim. Mas anota aquele arrependimento, sem tristeza, sem pesar, sem se sentir decepcionado com você mesmo, sabendo que todo mundo erra, e que pouquíssimas coisas nessa vida são irreversíveis.

Admitir que, mesmo sendo algo que você queria fazer, sua escolha não foi lá das melhores (até porque nem sempre é possível ou ideal que se faça a própria vontade, e existem vontades passageiras), faz parte de viver. Mas que do arrependimento venha só isso: a consciência de que nem tudo que a gente faz tá certo.

E hoje eu posso dizer feliz que todas as minhas âncoras se foram.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

in memoriam

Gosto de pensar que a terra toda tá um pouco tristinha hoje. Que, de alguma forma, as abelhas tiraram o dia de folga, que os passarinhos resolveram não cantar, que o sol não vai brilhar do mesmo jeito. Claro que não. Mas eu gosto de pensar que sim.

Eu sou passageira de primeira viagem nesse trem de pessoas que a gente ama que se vão. Minha única experiência com morte até então tinha sido ver meu hamster chinês morrer no meu colo, depois de dois anos e meio de uma vida feliz. E, vou ser sincera, foi traumatizante o suficiente pra não me fazer ter coragem de comprar outro hamster. Ninguém tinha me preparado pra como é dez vezes pior perder alguém

Acabo pensando na letra daquela música que a Nancy Sinatra canta "I wake up in the morning and I wonder: why everything's the same as it was? I can't understand, no, I can't understand how life goes on the way it does".¹ É complicado de entender. Tudo continua, a vida segue do mesmo jeito, sem mudar um pouquinho. A única coisa que muda é esse vazio que dá, e dá porque eu sei que quem perdeu fui eu. Minha vó tá em paz, mas eu não tenho ela mais.

Nunca mais eu vou ver o sorriso alegre que ela dá sempre que ganha um chocolate ou que come sorvete. Nunca mais vou ouvir a voz dela dizendo que eu tô bonita ou ela respondendo "quero" toda vez que alguém pergunta se ela quer mais um pedaço de bolo. Nunca mais vou sentir a alegria que a risada dela traz, ou a alegria que me dava brincar com as "pelancas" dela e ver que ela se divertia tanto quanto eu. Nunca mais eu vou ouvir ela dizer que me ama. E nunca mais eu vou poder dizer que amo ela. E o tanto que eu amo. 

Minha vó foi uma das mulheres mais genuínas e amorosas que esse mundo já conheceu. Difícil encontrar uma pessoa que tenha se sentido mal na presença dela. Ela tinha um jeito delicado e alegre de levar a vida, e ela nunca deixou de agradecer, nem por um minuto, nem doente, nem no CTI, e gosto de acreditar que não parou de agradecer até agora. Eu tenho muito a aprender com o que ela deixou pra mim. Quando eu penso na fé que tenho no amor, penso que uma das pessoas que me faz acreditar nele, é minha avó. 

Afinal, eu acho que o sol realmente não brilhou do mesmo jeito. Ainda que só pra mim.

And it's true that you've reached a better place, still I'd give the world to see your face. It's so hard to accept the fact you're gone forever.²





¹Eu acordo de manhã e me pergunto: por que tudo é o mesmo que era? Eu não consigo entender, não, eu não consigo entender como a vida continua do jeito que ela faz (tradução pessoal).
²E é verdade que você está em um lugar melhor, mas eu ainda daria o mundo pra ver seu rosto. É tão difícil aceitar o fato de que você se foi pra sempre (tradução pessoal).